Parte Final
O cheiro de sangue vindo da geladeira inebriava o ambiente, e um fino filete de sangue tinha começado a sair de uma canto da geladeira e escorrer pelos sulcos do granito, olhei nos olhos de Virgínea que parecia totalmente insensível a carnificina contida dentro da geladeira. Um olhar que continha muitas respostas, um olhar apaixonado que me comovia a alma. O fato da cabeça de Rodolfo parecer nos observando dentro da geladeira não me causava mais nenhum asco, a emoção quanto a presença de Virgínea sentada a minha frente era maior, sentia uma aproximação muito grande após aquela cópula, uma grande afinidade, parecia que éramos antigos amantes. Me sentei numa cadeira no lado oposto da cozinha, e no meio da mesa contemplei a permanecia das gotas de sangue de sua pureza rompida, então resolvi ouvir suas explicações.
- Porque você matou essas pessoas inocentes ? - disse olhando em seus olhos
- Eu não matei essas pessoas.
- Então quem matou ? Freddy Kruegger ? Jason ? Olha que hoje nem é sexta-feira 13.
- Não brinque agora João. O que vou lhe dizer é algo muito sério. E não matei essas pessoas, sou apenas cúmplice do assassino.
- E quem é o assassino, podia até ser o Rodolfo, mas ele está dentro da geladeira em pedaços pronto para o jantar.
- Você é o assassino Rodolfo. Você matou todas essas pessoas.
- Eu ?
- Sim. Você começou a ficar violento depois que começou a me amar.
Olhei para sua cara, como era linda. Sua beleza corrompia minha razão emocional, ela podia pular no meu pescoço com um facão, e arremessar minha cabeça decapitada contra a parede que eu não teria reação graças a sua beleza.
- Você é uma linda louca. Mas acho que precisa de um tratamento psiquiátrico. Não estou entendendo nada do que você está falando.
O que ela me explicou em seguida mudou minha vida para sempre. Apartir daquele dia eu descobri minha psicose, eu era também uma outra pessoa. Somente Virgínea conhecia essa outra pessoa, o João que se relacionava com ela tinha outras características peculiares, devido a minha paixão doentia tinha desenvolvido uma desordem na minha esfera pragmática.
- João, nós somos amantes a exatamente 2 anos.
- Faz 2 anos que nós estamos namorando ? Você sempre viveu ao lado do Rodolfo. Aliás, você nunca olhou para mim.
- Você não vai se lembrar mas a quase 2 anos atrás, no começo do colegial, você veio até mim e mostrou toda o seu amor, segurava uma flor e junto com essa flor, uma carta mostrando sua paixão. Sempre que eu leio essa carta, eu me derramo em lágrimas.
Ela se levantou da mesa segurou a minha mão e me levou até o seu quarto. E dentro de uma caixa, tirou um carta e me entregou na mão. Era minha caligrafia na carta, o mesmo modo de escrever de quando tinha 15 anos, a prova de minha doença mental.
Virgínea,
Você pode achar que sou um louco após ler essa carta. Mas desde os 13 anos de idade eu te observo sem poder fazer nada, desde o ginásio os seus passos e seus atos guiam minhas emoções, talvez eu tenha nascido apenas para te amar, talvez Deus tenha me colocado no mundo apenas para seguir o seu destino. Vendo que apenas vivo em sua sombra, resolvi agora sair desse casulo que me atormentava e lhe escrever essas confissões. Eu te amo do fundo da minha alma. Te amo mais que a vida, sou capaz te matar em nome desse amor.
Eu sei que você namora com um rapaz. Desculpe minha ousadia, mas se quiser falar comigo, escreva seu nome no tronco do eucalipto em frente a sorveteria da praça. Dentro dessa carta tem um canivete, se o seu nome não estiver ao lado do meu amanhã, voltarei para meu silêncio, e lá contemplarei minha solidão.
Com amor
João
- E então você escreveu o seu nome na árvore e eu fui atrás de você - conclui.
- Foi, e a partir daquele dia, começamos a viver um romance as escondidas de minha família e de Rodolfo, e nos encontrávamos apenas quando o seu outro lado se manifestava.
- Isso explica então meus lapsos de memória - comecei a andar de um lado para o outro no quarto, não acreditando naquela realidade bizarra - Como você descobriu que eu tenho duas personalidades ?
- Eu queria te ver, te olhar na sala, te tocar sempre que sentisse vontade, e você me disse que isso não seria possível, porque estava sofrendo de uma doença, e que eu era a causa dessa doença.
- O meu amor reprimido por você, despertou em mim um lado espontâneo. - conclui automaticamente - É isso ? Eu então sou um esquizofrênico ? Um psicopata ?
- Eu aceitei essa sua doença. E esse era o nosso segredo, ninguém sabe, nem seus pais sabem. E sofri muito por não poder te olhar quando queria. O problema é que agora nesses últimos dias você começou a me amar muito. Começou a sofrer demais e então o outro lado que sabe de toda a situação resolveu acabar com esse sofrimento.
- Resolver como ? Matando todo mundo ?
- A Mirtes, um dia antes de morrer, me ligou procurando minha mãe, e como ela está viajando começou a falar horrores de um garoto que estava interessado em mim, dizia que era um tarado, que ia tentar se aproximar de mim.
- Essa pessoa era eu.
- E contei isso para sua outra personalidade e ela ficou muito nervosa. E disse que ia resolver isso pessoalmente.
- Então eu matei Mirtes.
- Matou.
- E você não me impediu porque ?
- Porque as coisas são assim meu amor. Ela não ia deixar você se aproximar de mim. Tínhamos um plano e esse plano é que você viesse ao meu encontro. A maldita da Mirtes ia envenenar minha mãe com mentiras e nunca poderíamos aproximar você de mim.
- Porque simplesmente você não chegou pra mim e disse isso tudo ?
- O seu outro lado sabe de tudo que você faz, ele pode agora mesmo se manifestar, ele é expontâneo. Toda essa violência aconteceu num momento em que nosso plano começou a dar errado. O jardineiro morreu por ter colocado em risco nosso plano, a coitada da Lucrécia morreu por isso também.
- E o seu namorado ? O que ele tem a ver ?
- Quando você presenciou Rodolfo me violentando no quarto, a sua ira interior resolveu mata-lo. Na verdade eu permiti que você matasse Rodolfo. Ele morreu poucos minutos depois dos empregados, ele praticamente presenciou a carnificina. Apenas ouvi o som abafado do cutelo rompendo a carne e cartilagem do maldito, ele nem gritou, nenhum deles gritou, você sabe fazer as coisas amor. Silencioso como tem que ser.
- Eu não posso aceitar isso. Eu não sou esse animal que você está me dizendo.
- Se você não aceitar, ele irá tomar sua existência para sempre. Tenha certeza que ele está nos ouvindo, e muito satisfeito por termos feito amor. - ela se levantou e tirou o roupão, e ficou nua novamente na minha frente - Ele queria que você tirasse minha virgindade, agora finalmente nós três opodemos ser uma única pessoa.
Nos beijamos novamente e transamos sobre sua cama até o dia escurecer pela janela. Enterramos Rodolfo em outro canto do jardim na calada daquela noite. Os corpos de Rodolfo, o jardineiro e a empregada nunca foram encontrados, nem a polícia tinha eu como suspeito, não existia nenhuma testemunha que comprovasse meu acesso a casa de Virgínea e nem a polícia foi atrás dessa conexão.
Com o passar dos anos minha outra personalidade raramente se manifestava, somente quando tive alguns problemas, e sempre que isso acontece Virgínea sempre é meu álibi. 20 anos depois estou bem casado com ela, temos 2 lindos filhos, sou bem relacionado com seus pais, que aceitaram meu amor por Virgínea após o desaparecimento de Rodolfo. Os fantasmas das dezenas de pessoas que matei durante minha vida as vezes aparecem pra mim, me observando. Porém nada fazem, sabem que não tenho culpa. Talvez minha culpa foi ter aceitado essa minha situação, não procurado um tratamento. Descobri então que o amor é uma virtude maior que a morte, depois de todos esses anos e escrevendo essas páginas não me arrependo de nada que fiz, vale a pena aceitar a morte em nome de uma paixão.
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