quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Caga Grosso

Eu sei que o assunto é escabroso, mas a história tem seus atrativos; um deles é que aconteceu de verdade. Minha senhora foi testemunha, e no sarau de ontem (a falta de luz, às vezes, é benéfica) rimos muito dela.

Meu cunhado Zé Luís tem uma irmã famosa por cagar grosso. E quando eu digo grosso, eu quero dizer grosso mesmo: as dimensões médias de um troço dela equivalem às de um pão francês. Evidente que a fama fica no seio da família; é o tipo da coisa que não se deixa extrapolar, para evitar o gáudio da galera alheia. Minha mulher, por exemplo, conhecia a moça, mas não seu infame atributo.

Pois estava meu cunhado promovendo uma das suas periódicas feijoadas públicas ontem; minha mulher foi, e a dita irmã foi também. Diz a minha consorte (bonita palavra, ?consorte?; liga a sorte dela à minha, o que é, no fundo, um tremendo azar) que a moça entrou no banheiro para a ?função barral?, e saiu depois, normalmente, quase assoviando. Minha cunhada entrou em seguida, e saiu depressinha:

- Zé, vem cá!
O Zé Luís, que é um bonachão, foi, andando devagar.
- Fala, amor.
- Não acredito! Tua irmã fez aquilo de novo!

Vocês hão de compreender a minha senhora quando ela diz que seus ouvidos saltaram com essa frase. Ela ficou interessada, e não é para menos. Eu também ficaria: ?aquilo? o quê? Que tipo de coisas ela praticava nos banheiros? Madame Tosetto deixou de encher seu prato e foi lá ver.

- Que é que houve, gente?
- Olha lá o que é que houve respondeu minha cunhada, furiosa.

Ela foi, viu e não entendeu. Disse-me que a primeira coisa que pensou foi que haviam jogado um ovo de páscoa na privada. Depois, notando a textura, o aroma e outros detalhes técnicos, percebeu o que era.

- Nossa!
- É sempre assim - rugia a minha cunhada - Sempre que ela vem aqui, ela caga esses troços enormes, e entope tudo! Olha aí, não desce!

E apertava a descarga, várias vezes seguidas. A água vinha quase à boca da bacia, e refluía devagar, mas o troço não passava mesmo. Minha cunhada quase chorava:

- E agora, Zé Luís? Que que a gente faz?

Zé Luís é a imagem da calma. Falou devagar, muito tranqüilo:

- Olha, faz o seguinte... você enche aí um balde d?água... vem... e despeja. Mas vai despejando devagarinho, entendeu?... de pouquinho em pouquinho... até que desce.

Nessa altura, o movimento no banheiro já havia atraído mais gente. Veio primeiro a minha sogra, depois a mãe do Zé Luís (e, por conseguinte, mãe também da infratora). Que já chegou perguntando o que havia.

- Olha aí a merda que a tua filha fez - respondeu minha cunhada, já mandando a gentileza pro mato.
- Ai, meu Deus, que vergonha!!! Eu falo pra essa desgraçada não cagar na casa dos outros que sempre a gente passa esse vexame, minha nossa Senhora!

Minha sogra olhou, encostou na parede e começou a rir fininho:

- Qui, qui, qui, qui, qui...

Minha cunhada foi encher o balde, e o resto do povo ficou lá, contemplando. A mãe dela dizia a todos:

- Olha, lá em casa essa infeliz já entupiu os canos tantas vezes que o meu marido não teve remédio senão deixar um pedaço aberto, pra gente limpar o cano com um vergalhão quando acontece. Nunca vi uma coisa dessas! Como é que passa, um troço desse tamanho?

Voltou minha cunhada com o balde. Era um balde grande; começou a despejar, debaixo de múltiplos conselhos:

- Devagar, devagar...
- Despeja em cima da bosta.
- Pára um pouco, pára; agora vai...
- Ih, num vai descer não...
- Qui, qui, qui, qui, qui...
- Calma, gente.
- Joga logo tudo de uma vez, ué!

Acabou a água. A merda não desceu.

- E agora?
- Agora a tua irmã que venha jogar água!
- Não é por aí... vamos dar um jeito.

Minha mulher deu uma idéia.

- Pega um pau e catuca aí o cocô até descer.
- Boa idéia.

Foi meu cunhado em busca de um pau. O resto ficou lá, olhando a merda. Volta ele com o pau. Começou a cutucar, mas nunca pegava de jeito, e a bosta escapava, escorregando ora prum lado, ora pro outro. E tome o pau cercando a bosta, e o troço dando show de agilidade.

- Assim não vai concluiu - meu cunhado. E coçou a cabeça. E todos coçaram a cabeça. E foi uma grande coçação, até que a mãe dele sugeriu aquilo em que todos pensavam, mas que ninguém queria falar:
- Pesca com a mão e joga no lixo, ué.
- Que é isso, mãe... tá louca?
- E tem outro jeito, menino? Pega logo aí e joga isso no lixo.
- Imagina se eu vou meter a mão na merda, mãe...
- Usa aí uma dessas tuas luvas de enfermeiro.
- De jeito nenhum. Tem que haver outra maneira.

E teve uma idéia.

- Peraí.

Saiu e voltou com outro pedaço de pau.

- Olha só: com esse pau aqui, eu encurralo o troço aqui neste cantinho...

E encurralou o troço num cantinho.

- ...e com este aqui eu catuco ele pra baixo.

E foi empurrando mesmo, os gestos lembrando o destrinchar de um peru. E encurrala daqui, soca dali, vai, vai, vai, foi: a merda desceu. O cano, estrangulado, emitiu um gorgolejo, mas mandou para baixo com indiscutível segurança.

- Desceu!
- Desceu!
- Êêêêêêêêêêêêêêê...

Sorridentes, voltaram todos à cozinha, para encher seus pratos. Ficaram um longo e indeciso minuto olhando para o caldeirão, onde borbulhavam feijões e paios.

*Texto de Orlando Tosseto.

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