sexta-feira, 29 de setembro de 2006

O Efeito Colateral.

Meu carro tava com a lenta oscilando. Aquilo me incomodava e resolvi revisar a injeção. O japonês que sempre arruma meu carro tava chapado de serviço e acabei levando a outra oficina aqui perto do trampo. Era dia 18 de agosto. Dois dias depois e 400 paus a menos na minha conta, peguei o dito cujo zeradinho. Uma semana rodando, notei que os 50 Reais semanais de gasolina não estavam nem dando pro cheiro, ou seja, a filha da puta estava concorrendo comigo na bebedeira.
- Preciso voltar na oficina. - Pensei.

No dia 31 de agosto, peguei meu moleque e o levei para o treino de futebol, o cara leva jeito e vale o esforço apesar do saco que é ficar das 8 às 10 da noite no clube. Na ida, meu maravilhoso automóvel resolveu ficar sem embreagem. Treino cancelado para o Lucas. Sabedor que sei das características mecânicas desse carro (motor de Audi) meu cu fechou-se hermeticamente temendo a facada de uma porra de embreagem. Liguei pra seguro já prevendo a remoção. Meia hora depois eu caminhava desnorteado para casa. No dia seguinte, o laudo da oficina do Toyama, a que sempre levo meu carro:
- Olha, estourou a mangueira do recipiente do óleo hidráulico...
- Sei. - Desesperado.
- Não é nada complicado...
Como um zé buceta desse japonês me fala que não é complicado? Ele já mexeu duzentas vezes no carro, sabe que tudo é foda e difícil. Respirei fundo:
- Toyama, quanto é essa porra?
- A mangueira? Três Reais.
- Três Reais??
- Nem isso, dois e noventa.
- Meu, troca essa merda então. E revisa todo o sistema.
- Revisa o hidráulico da embreagem?
- É.
Justamente nessa semana, fez um frio do caralho e eu andando de moto. Resolvi ir à oficina pra ver como andavam as coisas.
- Daí Toyama, tá pronta?
- Não tem peças, greve na Volks.
- Putaquiparil, é mesmo, eu vi no jornal.
- Vai demorar.
Na semana seguinte fez um frio mais do caralho ainda. E choveu. E na quinta feira minha moto simplesmente parou no estacionamento. Não pega. Tá lá ainda. Oito dias andando de ônibus , o japonês me liga:
- Tá pronta.
- Quanto?
- Deu 600 Reais.
- CARALHO!! Não era 3 reais a mangueira? Que porra de revisão é essa, Toyama?

O sistema hidráulico de um carro comum com direção assistida é dividido em duas partes:
Uma rede alimenta a direção e a outra o freio. Como eu já tinha gastado um monte na revisão da direção há um ano mais ou menos, sobrava o do freio que também é responsável pela embreagem do MEU carro e de alguns que andam por ai. Nada espetacular, tem ate nos Pálios mais novos. O japonês da oficina explica:
- Revisei tudo, tive que trocar as juntas do ABS tambem.

O ABS é a sigla de Anti Blocking System e é um acessório muito útil. Diminui a distancia de frenagem e não deixa as rodas travarem como nome já diz. E eu esqueci que o sistema de freios que alimenta também a embreagem do MEU carro tem ABS e tudo que vai no ABS custa uma fortuna. Tudo bem, vacilei. Vou pegar o carro, pago e na hora de ir embora o japonês me avisa:
- Olha, o cara do guincho mandou avisar que quebrou a antena do teto do carro, tem o telefone dele aí pra você ligar lá.
- Quebrou a antena? Mas que porra é essa?

A antena, a base da antena, as três barras e toda a lateral do rack. Tudo quebrado. Ligo pro cara do guincho:
- Fuderam meu carro.
- Senhor, deve haver algum equívoco, aqui na ficha de transporte diz que o carro foi entregue em perfeitas condições, tá assinado por quem recebeu o carro na oficina.
Na verdade o motorista do guincho não avisou ninguém da presepada que fez. No papel, tudo realmente estava como se nada tivesse acontecido. Essa parte foi fácil, algumas ligações pro meu corretor e uns dez dias para as peças chegarem da VW.
Nesse meio tempo, uma mancha de óleo aparece no chão da minha garagem. Óleo hidráulico. Na oficina , Toyama coça o queixo olhando o motor do carro:
- O recipiente veio com defeito, tem que trocar na fabrica.
- E?
- Deixa o carro que eu tiro e envio de volta.
- Tá louco? Pede outro e quando chegar me avisa.
- Não dá, eles só trocam se enviar o com defeito. Ou você compra outro e depois a gente devolve. Leva uns quinze dias pra chegar.
O recipiente antigo não tinha defeito, foi trocado porque o japonês o afirmou estar ressecado. E o jogou fora. Um cheque de 62 reais foi feito.

Lembra que o carro tava gastando muito? Voltei na outra oficina.
- Tá bebendo muito. Fazendo 4 com um litro, fazia 6, 7. Fora o cheiro de gasolina no escape.
- Deixa ai, vou ver.
À tarde voltei:
- Resolveu?
- Passamos no sensor, está tudo perfeito. Ate andamos com ela e não falhou. Tá falhando em que situação?
- Não tá falhando, ta gastando muito.
- Ah tá. Pensei que tava falhando. Volta amanhã que eu acerto isso.
- Saco.

Há dois dias atrás, o cara do guincho ligou. As peças chegaram. Indicaram uma loja de acessórios pra fazer a troca. Levei o carro ontem bem cedo e tentei falar:
- É que o guincho...
- Já sei, eles ligaram avisando. Aguarda um instante que isso é rápidinho.
Não foi. Quando o sujeito tirou os restos da antena quebrada, a lataria estava deformada e a antena nova ficava torta. O instalador deu o parecer:
- Tem que chamar um "martelinho" pra acertar esse encaixe na lataria. Vai ter que tirar o forro, vixi, vai ser foda isso.
Ligo pra o cara do guincho, ele bufa:
- Duzentos paus?? Bom, manda fazer que eu mando o cheque.
O carro ficou prometido pra o dia seguinte. Eu sem moto. Mas minha sorte parece ter mudado. As cinco da tarde o cara da loja de acessórios ligou.
- Tá pronto.
- Já?
- É, duas batidinhas e voltou.
- Beleza, vou buscar. O cara do guincho pagou?
- Nada.

Paguei. Vão me reembolsar. À noite levei o moleque no treino, carro com antena, barras , tudo novo. O Lucas jogou bem, fez um gol e tal. Hora de ir embora. Meu carro não pegou. Sem sinal nenhum. Zero, vazio, vácuo. Por estar gastando muito, encharcaram as velas e inundou as câmeras de combustão disse o socorro mecânico, isso as onze e meia da noite. Foi rebocado hoje cedo pra oficina. Ta chovendo aqui em Santos. Cheguei no trampo atrasado. Levei um esporro do chefe que parece muito desconfiado dos defeitos que meu carro dá.

Um equipamento mecânico demanda manutenção corretiva e preventiva. As possibilidades de algum tipo de pane devem ser consideradas. E as probabilidades disso tudo acontecer em menos de 30 dias ? Falando em probabilidades me lembrei desse trecho de um conto do Jê:

Matheus me diz:
- Jesus explicou pra mim e pro Paulo. O inferno é o lugar que faz um calor danado, é governado por demônios e você passa a vida inteira se fodendo direto. Deus me livre!! Jesus disse que se chamara Brasil.
- É mesmo?? Putz, já faz calor aqui...E quem me salvaria dessa??? - Paulo de pronto responde:
- Só Jesus salva...ou Deus!!
- Ih cara, esse papo de Deus ...vocês parecem crentes!! Deus nem existe. - Falei desdenhando. Matheus me ameaça:
- Velho, não brinca com isso não! Deus é foda e pode te castigar.
- Me castigar??? Como se Ele não existe?? Nunca vi, nunca ouvi. Isso é balela!! Quer ver?? - Olhei pro céu limpo , sem nuvens e disse - Se Deus existe, que caia um raio na minha cabeça!!

BRRRRRRUMMMMMMMMMMM

Cai no chão todo queimado e chamuscado. Fumaça pra todo lado. Caiu um raio na minha cabeça. Paulo me ajuda a levantar:
- Ta vendo Velho!! Brinca com essas coisas pra você ver. Se fudeu...
- Ai, ai, que foda!! Mas isso não foi Deus, foi só um raio...tem uma explicação cientifica... é que uma nuvem carregada de íons...

BRRRRRRUMMMMMMMMMMM

Outro raio. Esse pegou feio. Meu cabelo pegou fogo e minhas orelhas quase caíram. Paulo e Matheus se afastaram assustados:
- Olha Velho, pára de brincadeira. Você vai morrer. Raios não caem no mesmo lugar duas vezes.
- Porra, esse foi forte...ui, ui, minha cabeça...mas segundo estatísticas , existe uma remota, mas viavel probabilidade de um raio cair duas vezes no mesmo lugar....

BRRRRRRUMMMMMMMMMMM

Esse queimou tudo. Minha roupa, minhas sandálias, meu corpo todo preto. Paulo e Matheus saíram correndo. Eu no chão:
- Preciso falar com Jesus...

As conclusões são por sua conta e risco.
Se eu quero vender o carro? Porra, depois de todo arrumado, vou vende pra que? Vou ficar com ela por mais um ano se DEUS quiser.

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