
Altamira já não me respeitava mais. Foi uma amante minha quem me disse. Contou-me que a desgraçada estava a recolher um pastorzinho da igreja lá em casa, com a desculpa de rezar o terço. Nunca vi pastor rezar terço. Isso é coisa de católico.
Depois, vinha me enchendo, aporrinhando de tudo quanto é lado. 'Beléu, tú não pode continuar a beber assim', 'Beléu isso, beléu aquilo' 'Beléu, pelo amor de Deus, deixa de ir nesse saravá. Isso te arruina a vida' 'Beléu, vamos na igreja comigo' mas que raios de mulher, tá com medo de o espiríto contar algo é? Deixe estar, que o escondido se apresenta.
Naquela noite, no terreiro de Pai Sunzé fui alertado pelo Caboclo Pena Branca, que o Pastorzinho tava lá em casa naquele exato momento. Não tive dúvidas, deixei meu agrado ao santo e parti.
O dedo coçava no gatilho da arma. Tive que atirar no cão sarnento que rosnava para mim no portão de casa, de tanta raiva que eu tava. Chego em casa chutando a porta e surpreendo a mulher, o pastor e mais meia dúzia de beatas ajoelhadas no chão da sala, chorando.
-Tão chorando porque? Alguém é dono do cachorro lá fora é? Ou tão achando que Deus é surdo? Ou alguém já sabe que vai morrer?
Não sei porque, mas tinha que matar alguém e não flagrei nada. Só tavam ali rezando mesmo. Mas já tinha prometido pro santo sangue de gente.
O Pastor, sua esposa (Pastor casa é? Achei que só os padres podiam), as beatas (beata é da igreja dos crentes? Acho que sim, na católica são as papas-hóstias) começavam a orar fervorosamente pedindo misericórdia a Deus. Humpf, deviam pedir misericórdia á mim. Por fim não tive coragem de atirar em ninguém de joelhos e aquela barulheira estava a doer nos ouvidos. Como ia atirar em gente rezadeira? Isso pode dar em débito com o Quelediga, com o capiroto.
Como a vontade de sentar o dedo não passava, fui brincar com meu cachorro, ainda agonizando do tiro no focinho. Peguei uma bacia, degolei-o e colhi o resto do sangue do bicho que ainda agonizava e fui de volta ao terreiro, disposto a engabelar o santo.
Já não sabia mais se era santo ou não, só sei que Pai Sunzé tava no maior do cafuné com minha amantezinha. A coragem que me faltou lá em casa, manifestou ali. Com sobra. Enquanto o pai de santo levantava, girando os olhos e cafungando, enfiei o cano na cara do bicho e puxei. Duas vezes. Na menina dei mais dois.
Chutei a bacia com o sangue do cachorro, colhi o sangue dos dois, joguei na pedra de exú e saí.
O Pai de Santo era um malandro, mas o santo, querendo sangue, não se deixou enganar e o do cão não bebeu, nem eu por fim descumpri com o prometido a ele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Abobra Diário.