segunda-feira, 27 de novembro de 2006

EMPREGO NOVO, TEXTO VELHO.



Menina pobre que era, cansada de cuidar dos oito irmãos menores, aguentar pai alcoólatra e mãe vadia já passava dos limites. Precisava sair dali.

Arrumou seus poucos pertences em uma sacola ainda com farelos de pão e um forte cheiro de mortandela e desceu o morro. Seus olhos embotados de lágrimas, seus pensamentos distantes, lá no asfalto. Aquilo não era vida para ela, sabia onde queria chegar e sabia como chegar lá. Sofreria algum tempo, mas havia de se ajeitar na vida. Sem duvida conseguiria subir, galgar os degraus do suscesso a tempo de curtir uma merecida e precoce aposentadoria.

Tinha consciência que era bonita, jovem e trepava bem, e, oque é melhor, nunca tivera preguiça. Principalmente para transar. Quiçá escrevesse um livro depois, contando a trajetória de uma menina que deu duro e venceu na vida.

Arrumou-se como pôde e foi á caça do primeiro cliente, pelo menos para pagar um lugar para dormir e alguma comida.

Mirou um possível cliente, sentado em um barzinho tomando cachaça e comendo rapadura. Devia ser um sessentão já, concluiu ela pelas rugas e pelos ralos cabelos brancos.

-Oi gatão, afim de companhia?
-Acuma? É comigo?
-Claro meu amor. Sabe, estou louca para te aquecer, lhe fazer esquecer esse frio - Já desabotoando o casaco de largas ombreiras em público - Por apenas trinta reais, te levo conhecer o paraíso.

Nisso, surgem holofotes, camêras e microfones. Uma van com gigantes antenas transmissoras e os diabos. O velhinho abraça a moça, olha a camêra e diz:

-Psit, oh da poltrona. Se você quer ajudar a acabar com o sofrimento infantil, com a triste rotina dessas vagabundas juvenis, ligue agora para 0500-2006-007 e contribua com sete reais.

-Sete reais? - Exclama a moça - Negativo é trintão.
-Mas, é de pouco em pouco que mudamos isso - diz o cearense à moça - mas se você quiser e puder (para a camêra), para doar 30,00 ligue 0500-2006-030 e tenha certeza que seu dinheiro será muito bem investido.

Ouve-se um sonóro "corta" do diretor, as luzes apagam-se, os camêras se vão e a moça sem entender nada. Não sabia que sua fama viria tão rápido, e que seria tão breve. Não foram cinco minutos de fama. Só trinta segundos.

O cearense pede mais uma pinguinha ao balconista do bar, voltando ao seu banquinho.

-Mais uma rapadurinha também? - Pergunta o balconista ao entregar a bebida.
-Rapadura não, me dá um saquinho de amendoim e fecha a conta, que já estamos de saida, não é moça? Trintão e faz tudo é? Beleza, Bora lá.

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