
Petrônio Rocha era nordestino. Em São Paulo o chamavam de baiano, no Rio de paraíba, na missa de irmão. Homem forte criado no sertão, sofreu a falta de infância e aos 10 anos de idade era adulto de mãos calejadas. Não teve motivos nem tempo para aprender a sorrir ou chorar. Enterrou a mãe com o mesmo rosto que viu nascer seu primeiro filho.
Não fazia amor, fornicava, não tinha emprego, trabalhava, não comia, matava a fome.
Cedo fez família. Com o tempo, casou os filhos e filhas, vieram os netos, os bisnetos e Rocha não mudava. Sempre serio , sisudo e duro como seu sobrenome já dizia .Mas por ironia do destino, esse homem tinha uma fraqueza. E sempre que Maria, sua mulher, ouvia a voz embargada e insegura de Petrônio chamando seu nome, ela já sabia o que fazer e cumpria sua missão, indo ao socorro com o chinelo de borracha na mão:
- MARIAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!! CORRE !! NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, TEM UMA BARATA DO TAMANHO DE UM BONDE AQUI NO BANHEIRO!!
Maria se deparava com um baiano que chamavam de paraíba e às vezes de irmão , com o rosto vestido em terror, trepado na privada, com as mãos lhe cobrindo os olhos aflitos, espiando entre os dedos suados , a mulher matar o inseto com frieza assassina, quando planta a sola do calçado estoura no chão de cerâmica.
PLAFT!
- UI! Matou?!?
Era nessa hora que Maria perdoava toda indiferença do marido durante a vida sem carinho , perdoava o homem que não fazia amor, não tinha emprego, não comia .E a mulher servil, submissa ao marido severo, responde agora o apelo do macho acuado:
- Matei.
- Mas ainda tá mexendo uma perninha...
O respeito. A compaixão. Maria, se sente a mãe de cristo ao ver o sofrimento do filho, na morte certa e derradeira. Maria pensa que é santa, atendendo a oração do desesperado, é pura e imaculada quando oferece a palma da mão de apoio ao aflito:
- Desce daí seu cagão.
Bom feriado!
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