terça-feira, 9 de janeiro de 2007



Atraído por uma proposta besta, vendi meu pedaço de paraíso, minha alegria e meu sustento para comprar este gigantesco inferno, terra onde nada cresce, onde a chuva é só o castigo divino a complementar o humano. Mosquitos são os que abundam mais, junto de serpentes e aves de rapina que nem não dão chance dos corpos tentarem fertilizar o solo e logo estão dando bicada na beira do cu dos animais ainda mal-mortos.

Foi por causa destas aves que aprendi a atirar. Gostava de ver aqueles bichos feios, sempre de luto a tombar por sobre uma cerca, aquelas penas todas em rebuliço, mostrando que o tiro foi certeiro. Um alvo bacana, sem fim e barato. Logo estava derrubando os bichos em pleno vôo.

Naquele nada-fazer e no só viver por viver, aquelas brincadeiras foram me dando gosto. Na vadiagem o Demo dá aula e bons alunos faz, dizia mamãe. Eu estava formado.

Aquela fama de atirador percorreu aquela terra, fiz amigos, vinham conferir de perto o como eu mandava a morte em bala certeira. Alguns pediam dicas e tentavam aprender, mas por logo se diziam que aquilo era dom, que eu devia de ter sido atirador bom em outra vida, pois não errar uma moeda atirada à 20 braças de distancia era coisa muito incomum.

Logo veio a primeira oferta de trabalho. A paga seria muito boa, mas oque me fazia gosto era a arma que receberia para executa-la: Um rifle M16, americano, arma de precisão. Um tiro, uma morte. Diante daquele instrumento, nem pensei no que teria que fazer para obtê-lo, pouco me importava, desde que aquele fosse o meu instrumento de trabalho que o resto ao inferno fosse.

O Alvo seria o prefeito. Sujeito metido a botar a lei em tudo, acabou por se meter em políticas arriscadas. Sabia os riscos que corria. Quase nunca saia do seu gabinete e quando fazia era às pressas, cercado de seguranças. Uma aproximação não era fácil, por isso que eu fui escolhido. Para acertar de longe. Sem erro, sem alerta.

Não foi difícil. O coice da arma faz gosto, o cheiro da muita pólvora do projétil é agradável. Para garantir a precisão, me deram uma luneta acoplável. Trazia tudo bem pertinho do cano do cospe-fogo, achei bacana, mas para mim nem não foi preciso. Gostei de tê-la ali apenas para olhar mais de perto o corpo estendido enquanto os seguranças com cara de bobos procuram se esconder e revidar a esmo. Acho graça.

Quando o rebuliço se acalma e começa a ajuntar os primeiros curiosos, resolvo ir ver de perto o estrago que o chumbo faz em gente. Já ali, perto do defunto, pouco pude ver, pois a roda de gente já era muita e o chefe, a quem soube ali vice-prefeito, agora, diante do corpo, já prefeito, me olhou feio. Resolvi mostrar minha frieza e aproximei-me:

- O que houve? - Perguntei
- O Homem foi ferido, não vê?
- Puxa, que cagada. Foi sério?
- Uma bala espatifou a cabeça dele!
- Puxa, então ta bem ferido mesmo, não é? ? Demonstrando toda minha perplexidade.
- Ferimento fatal!
- E qual a gravidade?
- Não brinca não, tatarana, agora, some daqui e fique em casa até eu lhe chamar novamente. Some, tatarana.

Tatarana, nem sei oque isso quer dizer, mas gostei. ? Tatarana ? soa bem.

Peguei a arma e esconso voltei ao meu sítio. Duas cabras haviam parido. Me deu vontade de treinar tiros nos cabritinhos, mas vi as coisas caminham juntas: No bom, o bom no ruim a miséria. Deixei os bichos viverem.

Depois soube, que como eu, havia muitos outros ali, mas não de pontaria acertada como a minha. Nesta terra, oque dá é a política e a política precisa em muito da jagunçada. Mercado concorrido, mas neste mercado, eu tenha diferenciais: A pontaria já falada e refalada e oque vim descobrir depois, nos pés do morto: O gosto de ver o sangue escorrendo por fora das veias.

Este gosto logo tingiu de vermelho as verdes lembranças que tinha da terrinha e este sol vermelho a refletir na vermelha areia me fez entender que Deus dá a cada lugar a paisagem que os homens precisam. As aves pretas no meu quintal já nem me incomodam, já acho as danadas bonitinhas. Nem não faz gosto de lhes chumbar, só faço-o na impaciência do não chamar do chefe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Abobra Diário.