sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Positivo Pactuário

João Inércio não tem mais dúvidas: Seu trabalho jamais lhe deixará rico. Com o demo decide de fazer seu pacto. Abaixa o som que toca uma música qualquer do Roberto Carlos.

- Ow, baixa não João. Gosto dessa música.

- Só um pouquinho pra gente poder conversar.

- Diga lá e ergue de novo.

- Como é que se faz pacto com o Demo? - perguntou o corajoso homem à negra Maria Umbá.

- Nem sei não, homi. Ta me achando com cara de macumbeira é?

- Nem to. To só jogando verde.

- Jogando verde é? Como é isso?

- Deixa pra lá.

- Fala Hominho...

- Pensei que numa dessa podia ser tu mesmo...deixa.

- Vá te cagar. Mas diga lá, que deu de tu querer fazer pacto com o cão?

- Cansei dessa vidinha. Bater concreto o dia todo, chegar em casa, banho, janta...

- De vez em quando você vem aqui...

- Sim, é bom, mas queria ter mais dinheiro, mais sucesso. Queria ser como o... como o... como o Roberto Carlos. Não, queria ter o dobro do que ele tem. Imaginou???

- Vixe, ai eu tava arrumada. Você me pagava uma lipo, uma plástica e comprava umas roupas pra mim?

- Claro benhê. Ah, como faz falta dinheiro. Dava minha alma e a tua por isso.

- Eita, deixa minha alma fora dessa que ela tá bem instalada aqui no meu couro...

- Se hovesse um jeito.

- Já sei: Faz igual o Tião Galinha da novela- Diz a mulher.

- Que fez ele?

- Choca um ovo no suvaco e depois põe o bichinho dentro duma garrafa com uma cruz em cima.

- E nasce um diabo é?

- Não, mas você vai ser o único a ter um pinto crescido no suvaco e vai ser conhecido como o líder da gangue dos pintos engarrafados. Vai ganhar respeito do pessoal das granjas. Huahauah

- Vai se foder.

João não sabia o que fazer e fez como a criatividade mandou. Amarrou Maria Umbá num pentagrama riscado no chão, velas pretas acessas no cômodo todo, farofa, pimenta e dendê em bacias. Afogava-se com um charuto.

- Mmmm Mmmm

- Que foi muié?

- Mmmm Mmmm

- Ta, espera lá. Deixa eu tirar essa venda sua e essa meia da tua boca. Pronto, fala ai.

- O Demo já veio?

- Não porra. Se você interromper mais uma vez vou te cubrir de bolachas.

- Será que ele demora?

- Sei lá... só sei que você tá atrasando tudo.

- É que to com vontade de mijar. Dá pra dar uma pausa?

- Não!

- Pô, chega de palhaçada. Além de pobre tú tá ficando ridículo com essa de vender a alma. Se liga, a brincadeira acabou. Me solta daqui, que enquanto eu vou mijar, tú procura uma virgem pra fazer de conta que ta sacrificando.

João irrita-se muito, veda-a novamente, tampa sua boca com a meia e fita crepe. Uma iéia repentina, inspiração do torto, só pode ser. Uma excitação toma-lhe conta e com violência introduz seu pau em Maria. Maria gosta, a negra gosta de pau em qualquer posição, dia ou situação. Quando João sente que está para gozar, corta de leve um pulso seu, logo que o sangue escorre crava o punhal certeiro no coração da negra. Tenta gotejar seu sangue dentro da ferida dela, Um sinal que seu sangue caminha na morte. Que fosse para o inferno Maria Umbá e desse o recado direto pro tinhoso. Seu sangue como prova da disposição pactuaria. Ele estremece num gozo único. Maria se debate e agoniza enquanto João gritava em seu ouvido "- Fala pra ele, fala pra ele...." Ela tem seu derradeiro tremor. A vida abandonou-a

João se arrepende. Derramou sangue inocente sem motivo. Seria preso e passaria a vida na cadeia. Ah, o demo. Sutil sempre. Teria dado certo? Como saber? Precisava de um sinal. O pedido não era ficar rico? Sua carteira continuava vazia, alí dentro só o dinheiro da passagem do dia seguinte e um cartão velho da Mega-Sena. "-É isso..." Correu até a casa lotérica e fez sua aposta. Ficasse rico. Era o sinal.

Ganhou. Sozinho. Enterrou Maria Umbá longe dali que já começava a feder. Agradeceu-a por ter dado o recado que lhe fez positivo pactuário.

João, com gana de ser como seu ídolo Roberto Carlos pediu ao demo dinheiro, esqueceu a saúde. Logo uma doença misteriosa lhe obrigou a amputar as duas pernas. Xingou, inconformou-se e pediu perdão a Deus, queria sua alma de volta antes que lhe caísse os braços, orelhas e o nariz.

- Oh Maria, fala pra ele que ele pode pegar a grana de volta, mas que eu não quero perder mais nada.

- Tú não perdeu, ganhou em dobro... Roberto Carlos não tem uma perna, esqueceu? Recado dado. E tenha tento no falar, que ele não gosta de provocação. - dizia num sussuro do vento a voz de Maria Umbá.

- Ah, é isso... tinha esquecido. É só isso que ele não tem né? - Diz abobalhado para o espírito.

- Já olhou dentro das cuecas?

- Meu Deus, o Roberto Carlos não tem pau?

Emputecido, xinga o demo, reza à Deus em provocação e decide de pagar uma missa. Pega seu quadríciculo e vai com esse propósito procurar o padre. Antes, faz uma parada no bar para tomar uma, que ninguém é de ferro.

- Ah que ele não gosta de provocação, João. Diz um homem que surge repentinamente em uma moto.

- Avisado você foi - Diz o Garupa que puxa da arma e atira cinco vezes.

Da missa não precisou. Sua alma já estava encomendada.

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