quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Medicinal. II

"...a saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica."

Doutor Euclides foi denunciado junto ao conselho de medicina por "alguns detalhes insignificantes" como ele mesmo frisou em sua punição, que foi a de prestar , durante algum período, serviços médicos no sistema carcerário. E passadas algumas semanas ele teve que cuidar de Cláudio que tinha apenas 18 anos então. O caso era complicado. O detento havia sido instalado numa cela em separada conhecida internamente como "o seguro". Acontece que o carcereiro fez vistas grossas com as trancas e o rapaz teve todos os dedos de sua mão direita esmagados. Alem disso, negligenciaram socorro por uma semana. Com o resto da mão praticamente em decomposição, Doutor Euclides se valeu de todos os parcos recursos do hospital prisional, a fim de preservar Cláudio e cura-lo. O tratamento foi dolorido e baseado em fortes medicações. Ao longo de cinco meses, o paciente apresentou as primeiras melhoras, melhoras essas que acabaram por determinar a alta medica e transferência para outra cadeia. Cláudio teve o braço amputado na base do cotovelo, mas estava vivo.Nessa outra cadeia, Doutor Euclides já havia conhecido o detento que chamavam Alemão:
- Alemão, presta atenção nessa porra, não quero mancada. - Diz Euclides na enfermaria da cadeia com um pedaço de alcatra na mão e um bisturi na outra.
- Já entendi, caralho! Corto só a base do nervo. O resto , deixa intacto.
- E?
- Cago no corte. Agora me dá a carne que vou fazer uns "bife" - Diz Alemão tirando a alcatra das mãos do medico - vai ficar pra "janta" "dôtô"?
- Hoje vou. Depois voltou em uns dez dias pra ver como ficou.

E passados alguns dias, doutor Euclides teve que cuidar novamente de Cláudio. O caso era complicado. O detento havia sido instalado numa cela em separada conhecida internamente como "o seguro". Acontece que o carcereiro fez vistas grossas com as trancas e o rapaz teve a rótula do joelho direito removida a sangue frio com supostos estiletes, alem de defecarem sobre o ferimento, causando uma profunda infecção. Negligenciaram socorro medico ao ferido por uma semana. O tratamento foi dolorido e baseado em fortes medicações. Ao longo de um ano, o paciente apresentou as primeiras melhoras, melhoras essas que acabaram por determinar a alta medica e transferência para outra cadeia. Cláudio teve a perna amputada pouco abaixo da virilha, mas estava vivo.Nessa outra cadeia, Doutor Euclides já havia conhecido o detento que chamavam Celso Nôiado:
- Celso, o Claudinho chega amanhã. Você está preparado?
- Vai ser a primeira vez que vou pegar no pau de alguém, mas chega a me dar gosto fazer isso...
- Beleza, depois deixa que eu cuido dele! Volto em uma semana no máximo.
- Vai com Deus, "Dôtô".

Cláudio morreu aos 51 anos. Não tinha pernas, braços, pênis, parte do baço, córneas, fígado, um pulmão, dois terços do intestino e mais "alguns detalhes insignificantes" como atestou Doutor Euclides. De morte natural.

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