
Eu e Ernesto éramos muito vagabundos. Mesmo eu sendo um campeão na arte da vadiagem, Ernesto era muito mais vadio do que eu, e estava sempre cansado. Um fato notório.
Ernesto, com sua cara de bunda sem lavar e seu cheiro de bunda sem lavar era motivo de gozação onde quer que fosse. Eu admirava a indiferença com que ele se portava às zombarias. Não se irritava jamais.
- Porra Ernesto, os manos tudo dizendo ai que você nasceu de uma cagada e você vai deixar barato, meu?
- Tão falando é? Vi não! Liga não, esse povo só fala asneira.
- Tão te chamando de porco e é com razão né. Não é falar não, mas tu fede pra caralho. Já pensou em tomar banho alguma vez na vida?
- Já, mas dá canseira só em pensar.
- Porra, teu pai te fez de pau mole. Só pode!
- Deixa pra lá. E vamos tomar mais umas.
Além de preguiçoso Ernesto era um beberão de primeira categoria, de dar inveja a qualquer opala 6cc.
Entre os jovens desocupados como nós, estava na moda uma bebida colombiana, feita com que eles têm de melhor, que além de gostosinha dava uma onda dos diabos. Uma viagem alucinante, mas como não trabalhávamos e o dinheiro era escasso, comprávamos uma pinga chamada El Leon, numa garrafa de plástico com 700ml e com os caraminguás restantes comprávamos uma lata da bebida boliviana e misturávamos. A mistura não era lá tão boa, mas em compensação não era tão ruim quanto a Cachaça El Leon pura.
Para não dar muita bandeira e não queimar o filme com as meninas tomávamos fazendo pose, como se fosse um champanhe francês e a coloração negra encobria a vergonha transparente da pinga. A moda foi ficando, ficando e o passo definitivo à consagração da bebida como drink de vagabundo veio numa festa, onde só a nata da vagabundagem entrava e nós, claro, éramos convidados de honra.
As cervejas haviam terminado, mas a galera continuava com sede. Sem dinheiro para comprar bebida decente, fizemos uma vaquinha e compramos algumas garrafas de El Leon e uma embalagem PET 2 litros da bebida boliviana e preparamos nosso drink secreto para a turma toda. Graças a esta atitude salvadora a festa se estendeu mais algumas horas e só terminou quando ninguém mais tinha tripas para vomitar, em resumo: Um sucesso.
Quando íamos saindo, alguém pergunta:
- Como é o nome desse barato que vocês aprontaram aí?
- É... é.... porra, nem sei. Como é o nome disso? É... é..
- Cuba. Atalha Ernesto
- Huahuahua... um bagulho doido como aquele país de merda mesmo. Bom nome.
- Cuba Libre. Emenda
- Belo drink hein malandro.
- Valeu.
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