O negro de pé, suava em bicas e não era por calor. Sua mão apertava a pistola, difundindo carne e aço, nervos e molas, osso e pólvora. Um palito de fósforo dançava com a língua pela sua boca feito brincadeira de criança, hora pendurado entre os lábios, hora travado nos dentes.
No chão da pequena sala, sem muitas opções, o paraibano que chamavam "TrêsOitavo" esperava calado, o preto em seu ritual de paciência , amaldiçoando sua cor e fazendo lhe correr o medo pelo corpo. E quando viu o palito voando, cuspido com força da boca do negro, soube que tinha pouco tempo pra viver.
- Agora que vai ser , TrêsOitavo - Resmungou Buceta Encardida soltando o pente da arma e o guardando no bolso traseiro de sua calça - Só que vou fazer diferente.
Três Oitavos olha o negro colocando a arma desmuniciada sobre uma prateleira usada como um altar com imagens de figuras do candomblé.
Buceta benze-se e beija a guia preta e vermelha que trás no pescoço:
- Tu vai morrer, mas é na unha.
- Preto filho da puta...
- Isso TrêsOitavo, quero raiva! Agora levanta daí que não quero matar ninguém deitado.
- Sou cabra macho, sujeito homem - Diz o paraibano já erguido e com o peito estufado - Se vai ser no couro, ele vai comer pela...
Antes de terminar a frase, TresOitavo sente o soco que lhe quebra um ou dois dentes e o gosto de sangue na boca.
- Culff!!
O negro confere se não cortou a mão no soco e alisa as dobras dos dedos:
- Um sujeito homem arrasta criança pela rua , paraíba do inferno??! Presta atenção, um cabra macho só bate em mulher se ela não prestar - Fala Buceta com voz altiva, quase em sermão - Um bicho que tem culhão não mata outro por capricho...
Olhando Buceta falar aquilo, TresOitavo descobriu que ia sofrer feito cão, que ia pedir pra morrer, que ia ver o inferno antes mesmo de chegar lá. O negro ali, sem camisa brilhava feito metal, reluzia ódio por todo corpo, era a própria ruindade mandando raiva pelos olhos. E o medo se fez em urina quente pelas pernas abaixo. Buceta viu o mijo descer do infeliz e nem o ridículo lhe acalmou:
- Quero MERDA TresOitavo, MERDA! Quero ver é a MERDA sair do teu cu!
Buceta se lança contra o paraibano e lhe dá uma cabeçada certeira na testa. Olha o homem fraquejar das pernas , atordoado pela pancada, girando e tombando no chão. O crioulo de quase dois metros, bandido renomado, sente o corpo esfriar, os olhos virarem e não vê mais nada. Quem vê agora é TresOitavo. Buceta em transe, aproxima-se e sussurra em seu ouvido:
- Fui eu que mandei você acelerar o carro. Hoje fico aqui ate o Buceta terminar.
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