quinta-feira, 21 de junho de 2007



O presidente olha com tristeza através da fresta da veneziana de seu gabinete. Uma leve lembrança de outrora, quando de sua posse a mesma multidão o aclamava nas ruas o penaliza. O que deu errado? Porque agora saiam às ruas contra ele? Um assessor sente a angustia do chefe a somar-se à sua própria.

- Quanto tempo ainda resistiremos, Teixeira? Pergunta o amargurado presidente.

- Nossos homens guardam todas as entradas, senhor. É impossível à turba penetrar no palácio.

- E como andam os suprimentos de comida?

- Este é um ponto critico, senhor. Temos alimentos para mais dois dias apenas.

- Então nossa sina é mesmo morrer. Não há escapatória.

- Não devemos perder as esperanças, senhor.

- Que esperança, Teixeira? Milhões acampados ao redor do palácio à espera de nossa cabeça, as tropas debandaram e só nos restam poucos morteiros para mantê-los afastados das entradas. Meu Deus, como isso foi chegar a este ponto?

- Não levamos a sério as manifestações. Foi nosso erro.

Ninguém acreditou que os caixões carregados pelos manifestantes eram realmente para guardar os corpos dos senadores. Ao fim da sessão o primeiro senador que cruzou a saída foi apedrejado e sepultado de ponta cabeça no jardim da explanada dos ministérios, como um aviso. A policia não era mais capaz de controlar a multidão e esta logo ganhou novos adeptos, incentivados pelo sentimento de vingança. O caos se generalizou e tão logo todos os senadores estavam mortos e enterrados começou-se a matança aos deputados. Caça mais abundante.

Com a noticia espalhando-se à velocidade da luz via ondas de satélites das emissoras de rádio e televisão logo o povo até das menores cidades estava fechando o cerco à câmara municipal, prefeitura e fazendo o mesmo com seus representantes municipais, estaduais, juizes e autoridades em geral. Não se distinguia o bom do mau, apenas não-autoridades e autoridades, e esses eram sumariamente executados.

O presidente era o ultimo representante da raça dos governantes no país a respirar, mas por ser o maior dos representantes não seria perdoado ou esquecido. Restava-lhe apenas um fim sem honra que estava cada vez mais próximo.

- Teixeira. Quero que você me mate.

- Não posso, Senhor. Isso é um pecado mortal e não quero condenar minha alma num momento tão próximo de minha morte.

- Então eu mesmo faço, seu frouxo.

- Suicidas vão diretamente para o inferno. Acho que o melhor é nos entregarmos com honra e finalizar isso de uma vez.

- Porra, mas na pedrada é meio foda de partir.

- Não, olhe lá. Não vão nos apedrejar.

- É. A fogueira está armada. Muito melhor assim, não acha?

- Pelo menos não vão nos enterrar de ponta cabeça.

- Se não nos resta saída, não adiemos mais o momento. Bora lá.

O presidente arruma o nó da gravata, acerta a postura e caminha com serenidade rumo a rampa. Ao avistar a multidão respira forte e diz ao assessor.

- E o Grêmio ontem hein. Que merda rapaz. Argentinos filhos das putas.

- Pode crer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Abobra Diário.