terça-feira, 17 de julho de 2007


Lutador de luta livre, telecat... Ganho 2500 reais por noite... Geralmente luto de máscaras. Tatuagens são desenhadas em meus braços, conforme manda o personagem da noite. Noites de personagens maus, caveiras e demônios negros, noites de personagens bonzinhos, águias coloridas e com ar de vencedoras.

Demolidor era meu nome usado geralmente. Era raro eu fazer o papel do mocinho da noite, visto minha habilidade pra cair e fingir levar os golpes era melhor que a meu teatro para bater e me dar bem.

As apresentações aconteciam de sextas e sábados, e sempre nas vésperas e nos feriados. Ensaiávamos segundas e quartas, sempre na parte da tarde. Nas noites de quarta, após os treinos, churrasco e jogatina de truco era o programa dos atores.

O público que ali freqüentava sabia que veria dentro do ringue apenas um teatro de luta livre, e nada real, nada que realmente machucasse o adversário, mas adoravam aquilo. Adoravam assistir o mocinho apanhar até dizer chega e depois virar uma luta já perdida de uma maneira extraordinária. Emoção igual, o público só sentiu no quando Rock derrotou Apolo no primeiro filme da série.

Eu fazia parte de um grupo de 8 atores, e acontecia uma média de 6 lutas por noite, dependendo da lotação da casa. Em noites especiais já chegamos a fazer 10 lutas. Levamos a vida assim, treinando os “golpes” 2 vezes na semana e lutando nos finais de semana.

Mas, como nada na vida dura pra sempre, por um acaso do destino, fui responsável pela dissolução do grupo.
Numa quarta feira, depois do treinamento, Renato não ficou para o churrasco e a jogatina. Raro os atores não participar da confraternização. Disse que tinha um compromisso e se foi. Tomei meu banho após o treino, acendi o fogo e começamos nosso tão nobre e simples ritual de beber, comer e jogar...

O treinamento desse dia foi árduo, ficar se jogando, inventando novos golpes gera dores nas costas, e como já estou numa idade um pouco avançada, nesse dia eu senti. Fui embora um pouco mais cedo que o de costume.

Minha casa ficava perto da boate onde o espetáculo acontecia. Centro velho de São Paulo. Sempre que eu chegava em casa, era recebido pela alegria de meus cachorros. Pulavam, se abanavam, e latiam muito.

Nesse dia, nenhum latido, aliás, nenhum cachorro. Tinha e ainda tenho 3. As luzes da casa estavam todas apagadas. Nunca em 15 anos de domicilio eu tinha presenciado tal fato. Fiquei cabreiro. Entrei sorrateiro. E me deparei com a pior cena da minha vida. Renato estava a se atracar com minha esposa no sofá da minha sala, e meus cachorros assistindo aquela felação.

Continua.....

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