quarta-feira, 8 de agosto de 2007




Digo logo ao senhor, seô delegado: Sou homem trabalhador como nenhum há por essas bandas de cá, onde só nascem desses cabras molengões e pouco parrudos. Não precisa me olhar com cara de padre não, sacristão, que isso lá de filhos, eles são pequenos ainda e no próximo joguinho de pião já lhe esqueceram, não se preocupe. E a mulher, conforme a natureza lhe tenha feito, logo alguém consola, que dor de viúves não dura mais que o tempo do esfriar do corpo, ainda mais se o cabra for mole feito vossa senhoria. Veja midinha, nem não chora mais o marido que o senhor me acusa de ter matado. Sou eu lá cobra, homem?

Pois veja, vamos desalongar esse papo. Isso de criminoso é tudo o ponto de vista. O meu é que o senhor é quem cometeu crime de calúnia ao desfazer minha pessoa com tamanho desrespeito. Sou eu bicho pra morar em jaula? Logo homem trabalhador como eu, oras, que idéia mais desatinada sô! Pois digo, tenho é orgulho da profissão que escolhi. Não fica o marceneiro feliz ao dar forma à madeira? Não fica o ferreiro contente com suas peças ou o lavrador cheio de amor olhando a plantação crescer? Assim fico eu, de ver um sujeito desmerecedor da vida à dar parte com o capeta. Tenho até que é um dom meu, ou Deus não me daria uma mira dessas.

Veja o senhor como são as coisas: Morrer, todo mundo morre, mas o senhor vai pelas mãos do maior profissional que essas terras já ouviram, não digo que verá, mas sinta o que é o trabalho bem feito, eu que mesmo desgostando de voismecê, jamais faria uma porcalhada nesse seu corpo. Aqui é tudo como manda a lei de Deus, nos maiores princípios de humanidade possível, que matar é tirar a vida e só, nada de fazer sofrer. Agora, o senhor aproveite de minha benevolência e queira fazer a bondade de virar de costas e deixar essa nuca magrela bem exposta. Isso.

Ói lá. Um morto sem dor e de perfeita harmonia com esse chão de chiqueiro. Esse toleimado chamaria isso de “estética”. Bicho frouxo!

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