quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

João.


João economizou muito. Não fez viagens, não freqüentou restaurantes, andou com um Fiat 1982 durante quase dez anos. Sua mulher ajudou, também trabalhou e não se deixou cair na onda de consumismo, foi parceira do objetivo do marido. O casal de filhos não teve a melhor escola nesse período, mas uma de media qualidade e contentavam-se com uma ida ao cinema por mês. E por fim de longa restrição, a família reuniu recursos para mudar-se do apertado apartamento para uma casa térrea, com quintal e bastante espaço. João logo tratou de construir uma bela garagem, no intuído de em médio prazo comprar um carro financiado, já que o Fiat entrará como parte de pagamento no imóvel. INVELHOWETRUST

Certo dia, chovia muito e João foi verificar possíveis vazamentos em sua garagem quando observou um pedinte passando encharcado pela rua. A imagem tocou João, que em gesto nobre, convidou o pedinte a passar algum tempo sob a garagem, ate a passagem da chuva forte. O mendigo que se chamava Ademar, aceitou e ficaram os dois ali debaixo da cobertura, sem trocar uma palavra, olhando a chuva cair. A certa altura, com a insistência da tempestade, João avisa o homem que recolhera:
- Vou entrar, minha família me aguarda. Fique a vontade.
O pedinte agradeceu inclinando humildemente a cabeça enquanto João se despedia.

A chuva piorou nos dias seguintes, a televisão anunciava que nunca havia chovido tanto nos últimos 20 anos, era uma calamidade publica. A defesa civil amontoava desabrigados pelos colégios e ginásios da região e um dos agentes notou que João abrigava um desses infelizes, comentando isso junto a sua equipe:
- João, da rua de cima, ele recolheu um favelado em sua garagem, lhe dá comida e hospedagem. Precisávamos de gente assim em todo mundo, gente boa , de coração...

A noticia do solidário ato de João primeiro correu a cidade, com fotos nos jornais locais e entrevistas das emissoras regionais. Por fim, o Jornal Nacional divulgou num bloco inteiro, com editorial apoiando e citando como exemplo, o cidadão João. Depois disso, a casa de João tornou-se um centro de distribuição de cestas básicas, já que todo o Brasil, sensibilizado, enviava toneladas de mantimentos, remédios , roupas, utensílios e os mais diversos valores em dinheiro, tudo isso devidamente administrado pelo Ademar, o mendigo , que orientado pelos padres e bispos da ação social local, fundou uma ONG na garagem do bangalô.
Até o governador foi pessoalmente na residência de João, desapropriando e nomeando o imóvel como de utilidade publica, com direito a placa de bronze e tudo:


"Fundação Casa Ademar Auxiliador"

A família de João foi morar com parentes e João hoje vaga pelos grandes centros urbanos, sempre com uma garrafa pet cheia de etanol e uma caixa de fósforos, carregados na mochila escolar de um de seus filhos.
- É que no frio, eu faço uma fogueira na marquise da igreja.

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