Mas daí que me deu uma impressão de algo errado no monumento. Tinha algo estranho nos pés do Coronel, ele estava de sapatilhas de balé, com ponta quadrada e tudo.- Sapatinha de balé só se for na sua cabeça, aquilo são sapatos de natação! - Disse ríspido o guarda municipal que estava por perto, ao ouvir minha constatação.
- Que eu saiba, sapato de natação é pé de pato.
Falei olhando bem de perto a escultura. Quando me aproximei das costas da estatua, enchi as duas mãos nas nádegas de bronze:
- E isso aqui é bunda de mulher, homem não tem um rabo desse todo redondinho...
O guarda, com as narinas abertas em ultraje, colocou a mão no cabo do cassetete e soltou a frase travada por falta de motivos desde o primeiro dia de trabalho:
- TEJE PRESO!
- Preso?! - Olhei surpreso pela atitude do homem enfurecido.
- ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR! PASSOU A MÃO NA...- e disse miúdo - bunda do Coronel!
Os Fulanos e Antonios já rodeavam o local por conta dos berros do guarda. Um par de viúvas baixou o rosto, o bêbado ria-se pela cachaça alheio ao assunto, o vigário veio feito um super-herói balançando sua batina e capa ao ser informado por um boateiro que tinham matado alguém no meio da praça. Fez-se o clamor e fui encaminhado à delegacia.
Já sentado na mesa, de frente ao delegado, tentei explicar a situação surreal:
- Eu me referia a escultura, não destratei ninguém...
O tal guarda era algoz na defesa de seu testemunho:
- Chamou de VI-A-DO e encoxou o Coronel Antunes, esse pervertido, vi pessoalmente e como tenho fé publica, de acordo com o artigo...
O delegado, um rapaz recém formado de cabelo penteado de lado e a pouco na função do cargo, me olhou com desprezo quando interrompeu o falatório do guarda:
- Quer dizer que meu padrinho era homossexual?
Logo ali atrás do delegado, numa moldura antiquada, um retalho de jornal com uma foto, Coronel Antunes indicado por uma seta feita à caneta, junto a outros nadadores em torno de uma piscina provavelmente em Moscou. Pouco abaixo uma carta já meio amarelada e escrita a punho pelo próprio Coronel Antunes.
Dizia-se que na carta, o nadador narrava as maravilhas da União Soviética, o frio e a saudade do afilhado, desculpando-se da partida inesperada e sem despedida a altura.
Eu não li, se era isso mesmo que estava escrito, traduziram assim na capital, estava em russo, me contaram desse jeito, eu não conferi.
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