domingo, 25 de julho de 2010

Carta ABERTA AO EMICIDA


Emicida,

De algum tempo pra cá venho me motivando mais a continuar nessa jornada que é o RAP Nacional, pois do jeito que nossa cena estava, a tendência era acabar e esse processo já estava em nível avançado. Foi neste cenário que algum ser superior iluminou os horizontes para pessoas como Criolo Doido e outros artistas que passaram a construir uma nova história e, querendo alguns ou não, foi dessa história iniciada por eles que surgiu você. E numa de nossas quintas feiras na galeria Olido, ouvi pela primeira vez o teu “Freestyle” que impressionou não só a mim mas a todos que estavam no recinto, e os que não estavam nesse e em outros encontros de rima certamente ouviram seu nome, o Rap ganhava então um novo ídolo, nasceu pra ser astro e todos sentiam e sentem essa sensação quando você sobe ao palco.

Seu disco revoluciona a questão “gravadora”, e põe até os discos piratas em risco, embora a arte e design não sejam lá de se dar competência, o conteúdo coloca os designs artísticos em risco também, questionando que o que vale é o conteúdo e inclusive eu que levanto a bandeira contra discos caros pagaria infinitamente mais, o conteúdo do seu disco tem valor infinito.

Porém ontem de manhã eu recebi mais um daqueles e-mails com links que a gente nem sabe quem enviou, e vi o novo modelo da NIKE em sua homenagem. Fiquei orgulhoso como se fosse uma homenagem a mim, coloquei a foto do tênis na área de trabalho do meu computador e a cada vez que fechava um programa eu olhava com orgulho a frase “A Rua é Noiz”.

Calçar um Nike sempre foi um sonho quando pessoas como nós éramos adolescentes, Nike parece ser um degrau acima da elegância, é estar na moda seja lá que modelo for, todos gostam de exibir aquele símbolo simples e único.

Mas voltando a realidade, este mesmo tênis exibido na minha tela, passou a escorrer algumas manchas vermelhas que só eu as via, e de repente aquele tênis branco e roxo se mostra opressor a cada ponto de costura. Na época da faculdade fizemos uma pesquisa sobre a Nike onde li alguns livros que relatavam suas explorações de mão de obra e a influência direta no golpe militar de 1964 no Brasil.

Caro E.M.I.C.I.D.A, sei que esta carta pode até soar como “síndrome de independente” ou para alguns “inveja” mas não é esta a intenção, pelo contrário, torço para o teu sucesso com a certeza que virá ainda mais forte e mais explícito do que hoje por que você é merecedor. Mas voltando a este caso especifico, fico abismado em como nós somos vulneráveis ao dinheiro e a fama barata, como nós sempre queremos entrar no bonde andando e sentar na janela, mas o sucesso e a fama são desafiadores, provocadores e vingativos.

As fabricas da Nike são propositalmente instaladas em países com legislação trabalhista falha e com incentivos fiscais interessantes, e por isso países como Indonésia e México conserva em suas fabricas todos os adjetivos da palavra exploração, onde seus funcionários trabalham mais de oito horas por dia e tem salários desumanos, são em sua maioria desprovidos de educação e saúde e o trabalho é pesado. No Brasil é ainda pior, e apesar de não existir fábrica da Nike aqui, eles possuem mais de 15 empresas terceirizadas no ramo de calçados e vestuário, essas fábricas ficam quase que em totalidade na região nordeste (por que será??), isso quer dizer que apesar de ter preço de importado é em suma fabricado aqui.

Para um país do G20 no 3° mundo, onde tem uma das piores distribuições de renda do planeta, um tênis não pode custar de R$150 a R$700 concorda? E é pior quando sabemos que ele só custa alguns centavos para a Nike.

No fim do ano passado a Nike promoveu o campeonato de futebol “Batalha das Quadras” , que foi totalmente influenciado pela música rap, resultando inclusive em um disco de rap com participação direta dos Racionais Mcs.

Estes fatos não são coincidências e por sua vez se assemelha a um pedido de desculpas, afinal, a classe do RAP é a classe trabalhadora, me assustou que o rap viu essa situação como vitória e não como uma maneira da empresa trabalhar a imagem deles, o rap naquela circunstância provou que papo não faz a revolução que muitos deles pregam. É um desafio meu caro, será que “Noiz” da Rua vamos colocar um daqueles tênis no pé?

Muitos vão dizer aquele discurso de que nos outros estilos musicais não existe criticas em situações como esta, vão dizer que Jay Z, 50 Cent e afins têm tênis deles, mas como você diz numa das músicas do disco “Não é só cantar”, espero que entenda esta carta e que analise a melhor maneira de lidar com esta parceria ou aproximação com a NIKE, pois ela já massacrou e massacra muitos dos nossos. Não apóie estes opressores porque eles têm grande parcela de culpa; e porque não nos motivos que sugerem o nome do teu disco?

Sem mais,
Rodrigo Mendonça (Rapper, Colunista e Educador Social)

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