Dicionário Aurélio – Revisão Março 2007.
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Fiquem a vontade de denunciar a policia, usuários de disco piratas e consoles modificados que postem neste blog. Não é nada pessoal.
Se joga, Richarlyson
Anos atrás existia um pacotinho dourado, com uns dois comprimidos dentro. Chamava-se LactoPurga e dava uma caganeira do caralho. Neguinho que tinha o rabo preso socava aquilo goela abaixo e saia segurando o cu com a mão pro banheiro, de tão depressa que fazia efeito.
Cervantes de sobrenome, Miguel de nome. Orgulho da mamãe até os sete anos. Após isso, foi-se uma apoquentação só. – Essa peste não decora nem “O Saci Pererê”, e por fim o abandono. Abandono aos brinquedos toscos, aquarelas confeccionadas com cascas de bananas e de cocô e tintas feita de merda, frutas e folhas esmagadas. O menino deixou de falar com gente. – Das ventas tortas – Dizia o pai – Mas isso precisa virar homem. Ah, Precisa – Repetia ele.
Acordava cedo e varria todo o terreiro como num ritual. Passava a vassoura de piaçava, muito maior que ele, nos tantos metros quadrados de areião derredor da casa num único sentido e depois ia com a vareta desenhando no entorno. Chorava quando ventava forte e esmurrava os céus com berros hediondos quando chovia. De vez em quando, uma galinha desavisada que ia ciscar por ali aparecia morta – Meu Pai – Chorava a mãe diante da geometria das tripas do bicho contornando o desenho.
O pai as vezes até via graça nos desenhos. Só nos desenhos, pois a mãe ocultava as cores e contornos da brincadeira - Uma nega, vê-se pelos quadris e pelo nariz. Donde este peste anda vendo essas sem-vergonhonices? – E já não achava mais graça. – Ta precisado de trabalhar. E vai! – Determinou o velho.
Afiou um bom facão, limou uma enxada e pediu que a mulher preparasse duas marmitas para o dia Seguinte. Ela fez.
Acordaram com o flá-flá-flá da piaçava no areião. O pai separou duas cargas e entre apreensivo e satisfeito saiu porta à fora. Colocou uma das trouxas nas costas do rapagote e à cabresto puxou-o plantação à dentro. – Tu é um homem meu filho. Venha!Aprendia rápido o menino. O pai se ria das caretas que ele dava no embico da cachaça. Riu-se pouco, pois logo aprendeu, bem como o manuseio da foice e do facão. Fez trabalho bonito aquela tarde e não mais voltaria, nem pela noite, senão pelos gritos da mãe diante de desenho tão horrendo, feito em sangue, membros e tripas humanas na clareira.
- É Dulcinéia, mamãe!
Já esta quase na hora, falta apenas trinta minutos para as doze baladas. A lua vai alto. Vejo-me agora já meio grogue diante da escrivaninha, a balançar compulsivamente a cadeira presidencial (adoro esse luxo, afinal, sou presidente da minha casa). Minha bagunça organizadamente espalhada pelo quarto todo. Este é o meu canto preferido da casa, até mais que o bar, mas o álcoolismo sempre me põe aqui depois de passar pelo bar. O canto preferido é sempre o segundo a ser visitado.
Enquanto escolho um disco para tocar, percebo o quanto estou velho. Todo mundo na era MP3 e eu não consigo abandonar meus queridos Long Play’s. Ajeito os que ficaram desorganizados na véspera e escolho “Em ritmo de aventura” do Roberto Carlos para rolar enquanto limpo “Ópera do Malandro”. O que esta piazada anda ouvindo hoje em dia? Com melancolia, confesso. - É, estou velho. – Neste local, peça exclusivamente minha, tudo é velho, tudo fora de moda, tudo a minha cara. Meus discos, meus livros, meu violino que nunca aprendi a tocar, minhas fotos e os antigos e pesados móveis, o cheiro de cigarro e bolor dos livros velhos dão a aura do ambiente.
O ambiente é pesado, mas aqui me alegro. É onde fujo das confrontações diárias, onde relaxo e leio, escrevo, bebo, fumo e escuto música. É difícil ser um velho num mundo tão moderninho. Porque minha mulher tem que querer trocar de carro? A velha caravan 78 me atende tão bem, minhas botas antiquadas me são muito confortáveis. Minha filha quer um IPOD, diz que o mp3 player dela é ultrapassado, o computador é ultrapassado, a tv é ultrapassada, tudo ultrapassado! Visto que minha data de fabricação é muito mais antiga que estes itens que a mocinha acha velharia, temo que logo queira me substituir por um papai digital estilo Tamagochi de alguns gigahertz
Freddo dorme lá fora, seu ronco, escuto aqui de dentro. Hoje ele faz aniversário também. Penso em ir cumprimenta-lo. Ele anda muito ranzinza. Lembro que vovó sempre diz que a velhice ou juventude é um estado de espírito, mas os 12 anos pesam muito sobre ele. Dizem que cada ano do humano equivale a seis do cachorro, então ele está fazendo 72 anos. Melhor deixa-lo descansar.
Meu velho relógio alerta: A meia noite chegou, mais um ano passou. Agora tenho 26 anos e 28 dentes. Quantos dentes terá Freddo? Quantos terei eu aos 72?

Já não escuto Ariel falar, pensamentos mais importantes colocam em segundo plano o garçom. Velho amigo que é, sei que devia prestar-lhe atenção, se não fosse por estar me negando a ultima dose. O copo vazio me irrita e não consigo ouvi-lo diante das formas que tomam os sons da jukebox. Coloco uma nota grande na mesa e rudemente peço uma garrafa inteira do melhor whisky – Para viagem, Ariel! – Sei que amanhã me perdoará e será o bom garçom de sempre.
Enquanto aguardo o troco rompo o lacre e abro a tampa. Imagino que devo estar com olhar vidrado e insano a olhar a boca desnuda e convidativa da garrafa. Dou risada do que podem estar pensando e com pena de mim mesmo dou um longo gole – Foda-se – respondo ao conselho que não pedi, mas veio junto com o troco.
O carro, amaldiçoado que é, não pega. Conspiração! Maldita cidade de bandidos! Onde está a trava anti-assalto? Humilhação um homem ter que provar à seu próprio carro que não é um bandido! Convenço-o por fim e, em paz partimos num passeio desembestado em vias iluminadas e bonitas. Reparo nas ruas e me culpo por julgar tão bonita cidade uma terra de bandidos.
A iluminação da Visconde de Guarapuava, Sete de Setembro, Mariano Torres e XV de Novembro, com suas casas bem preservadas, prédios modernos e boates vivendo pacificamente com seus mendigos e prostitutas. Bem sinalizadas e largas avenidas no coração da cidade querida. Uma maravilha!
Pego a Av. Victor Ferreira do Amaral, derradeira avenida antes da parada final e sou assaltado pelo deslumbramento da madrugada, livre das buzinas, dos tiozinhos barbeiros, ônibus à diesel, carrinhos de catadores de papel e vans escolares. Lindo! - Um gole para comemorar à vida de minha cidade pulsante.
A cidade passa cada vez mais rápido, a velocidade. Um farol alto e logo depois as luzes escurecem. Os gritos da noite soam mais alto. Cada vez mais escuro. Os berros de socorro. Alguém se importa comigo! Ao longe ouço as sirenes. Cada vez mais perto, cada vez mais distante. Imagino o que Ariel me falava. Bom amigo que foi, devia tê-lo ouvido. Mais uma vez sinto pena de mim mesmo.
A cidade pulsa.
Mas acabaram sendo publicados assim mesmo:
D.C. 29
Como era de costume, estávamos eu e Jesus fazendo nada debaixo de uma oliveira. Batia um ventinho bom e já vinha chegando aquele soninho de vagabundo quando noto que Jesus, sentado de cócoras, tremia os olhos numa espécie de ataque epilético. Como fui treinado em modernas técnicas de pronto socorro no Egito, comecei a sacudir Jesus pelos ombros e entrar em pânico:
- ACORDA PELO AMOR DE DEUS! JÊ, ACORDA QUE TEM UM DIABO ENTRANDO NO TEU CORPO, UM ENCOSTO!!!!!
Irritado, Jesus sai do transe e levanta-se me empurrando:
- %$^& quelpariu, tu é chato hein, Velho!?! Saiba que você interrompeu um importante download.
- Que?!?
- De tempos em tempos Deus disponibiliza atualizações para a humanidade. Como ninguém chega ao Pai sem Mim, acabo sendo a ligação desses aprimoramentos e recursos. E você fez o favor de derrubar a conexão.
Coloco a mão sobre o ombro de Jesus e digo em tom serio:
- Bicho, dá um tempo na mirra. Já escutei de andar sobre água, de multiplicar pão e o caralho a quatro, mas essa de tu ser um modem foi foda...
- Chama-se upgrade, Velho. Para você ter uma idéia, desde a semana passada Estou testando a versão beta de visão colorida. Acredito que mês que vem, você não terá mais que conviver com o mundo em preto e branco.
- Entendi. Mas me diz uma coisa: onde enfia o cabo de rede? - Perguntei apreensivo.
- Antigamente era meio complicado, mas depois de muito Eu reclamar, meu Pai montou uma rede wireless.
- Vai me dizer que enfiava o fio no...
- ...no nariz, Velho sujo.
- Opa, falei nada não. Só me faz um favor: Tem um maldito spam de aumentar o tamanho da piroca lá ...
- Não é spam, Velho. É a resposta deles sobre sua pergunta. E não, eles não enviam pra Galileia.
Dois mil anos depois.
- Jesus, os pais estão jogando filhos pela janela!
- Isso é coisa do diabo, Pai. Ele infestou os homens de vírus e bugou tudo...
- Posso formatar?
- Vamos esperar mais um tempinho, Eu ainda acredito neles.
- Mas eles não crêem em Você, filho.
